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Da Sedução - Baudrillard, Jean
Por Lara Haje

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Uma revolução pressupõe uma transformação radical de uma estrutura política, econômica e social. No livro Da Sedução, o filósofo francês Jean Baudrillard tenta demonstrar que a dita revolução sexual não foi de fato uma revolução, pois apenas deu continuidade à sexualidade anatômica e fálica preconizada por Sigmund Freud.

Este psicanalista afirmava que, em se tratando de sexo, a anatomia é o destino. Dizia que só existe uma única sexualidade, uma única libido - a masculina, sendo todo o feminino absorvido pelo masculino. Pois a sexualidade é exatamente essa estrutura forte, discriminante, centrada no falo. Na revolução liberal, a mulher tenta recusar esse destino - fálico por definição - pregando a difração das zonas erógenas, uma erogeneidade descentrada. Porém, não faz mais do que reafirmá-lo, pois continua usando a palavra anatômica (ou pelo menos, orgânica e erógena), a palavra do corpo.

O feminino, ao invés de se opor à anatomia como destino, tenta apropriar-se dessa sexualidade, proclamando seu direito ao gozo. O resultado é uma "polivalência erótica, infinita potencialidade do desejo, ramificações, difrações, intensidades libidinais, que acabam por gerar a indiferenciação da estrutura e sua potencial neutralização". Isso porque, para Baudrillard, em matéria de sexo, "a proliferação está próxima do total desperdício, pois o desejo só se sustenta na falta. Quando se operacionaliza sem restrição e passa totalmente para a demanda, torna-se sem realidade porque sem imaginário."

Para se opor realmente à anatomia como destino, ao invés de tentar apropriar-se do poder sexual, a mulher deveria reafirmar o seu próprio poder, que é outro - o poder da sedução ("O feminino não se opõe ao masculino, mas seduz o masculino") . Segundo o autor, somente a sedução contraria radicalmente à sexualização distintiva dos corpos e à inelutável economia fálica dela resultante. A mulher, porém, em nenhuma parte trata dessa sedução, do trabalho do corpo pelo artifício e não pelo desejo, do corpo entregue às aparências.

As mulheres envergonham-se da sedução, como de uma encenação artificial de seu corpo, como de um destino de vassalagem e de prostituição. Ela é combatida como desvio artificial da verdade da mulher, que tem de estar inscrita no seu corpo e no seu desejo. Influenciada de certa forma pela Igreja, que sempre colocou a sedução como diabólica, nossa moral reprova a constituição da mulher em objeto sexual pelo artifício do rosto e do corpo.

O autor, no entanto, considera o poder de sedução igual e superior a todos os outros, pois, "enquanto o poder sexual ou político representa apenas o domínio do universo real, a sedução representa o domínio do universo simbólico".

"Ora, a mulher nada mais é que aparência. E é o feminino como aparência que põe em xeque a profundidade do masculino. Ao invés de se insurgirem contra essa forma "injuriosa", as mulheres fariam bem em se deixar seduzir por essa verdade, pois aí reside o segredo de seu poder, que estão quase a perder, levantando a profundidade do feminino contra a do masculino." (...) "De nada serve jogar ser contra ser, verdade contra verdade; eis aí a armadilha de um subversão dos fundamentos, quando basta uma ligeira manipulação das aparências".

Quando as mulheres se opõem à estrutura falocrática, Baudrillard considera isso "uma tentativa de apagar o imenso privilégio de nunca ter tido acesso à verdade, ao sentido, e de ter permanecido senhor absoluto do reino das aparências". Era um privilégio porque "somente as aparências são reversíveis; somente nesse nível os sistemas são frágeis e vulneráveis".

"Não é exatamente o feminino como superfície que se opõe ao masculino como profundidade; é o feminino como indistinção da superfície e da profundidade." (Nota-se que o feminino aqui não é precisamente o sexo, mas qualquer sexo, qualquer poder insexual e sedutor). O feminino é ao mesmo tempo uma constatação radical da simulação e a única possibilidade de ultrapassar a simulação - precisamente pela sedução.

Portanto, o poder de sedução só assume forma de servidão na história de sofrimento e opressão imputada às mulheres pela revolução sexual. O recalque está justamente na narrativa da miséria sexual e política das mulheres, na qual se exclui qualquer outro modo de poder e de soberania.

O autor sugere que talvez essa história de dominação patriarcal, de falocracia, seja até mesmo inventada, já que a hipótese inversa - de que o feminino nunca foi dominado, mas sempre foi dominante - também é perfeitamente plausível. Porque o masculino apresenta todos os signos da fortaleza e, por isso mesmo, da fraqueza, pois precisa se defender às custas de supressões, instituições, artifícios. "Vive apenas das muralhas de uma sexualidade manifesta, de uma finalidade do sexo que se esgota na reprodução ou no gozo".

Num esforço sobre-humano, os homens erigiram seu poder e instituições para contrariar os poderes originais superiores da mulher. O autor nega Freud aqui ao dizer que não é a inveja do pênis o motor, mas o ciúme do homem pelo poder de fecundação da mulher. Inventou-se, então, uma ordem social, política e econômica masculina, onde esse privilégio natural pudesse ser diminuído.

Isso tudo é perdido, no entanto, quando o feminino é instituído como sexo, mesmo e sobretudo para denunciar sua opressão. Ao proclamar o direito ao gozo, a mulher ignora que pode haver uma intensidade superior na ausência ou negação do gozo, que não é mais que uma pulsão, energia em busca de seu fim. "O gozo é o usufruto industrial dos corpos, um produto de extração, produto tecnológico de uma maquinaria de corpos, de uma logística de prazeres."

Essa sexualidade destinada única e exclusivamente ao gozo - que sugere uma obrigação de fluxo, de liquidez e de ciruculação acelerada do psíquico, do sexual e dos corpos - é uma réplica da lei que rege o valor mercantil: é preciso que o capital circule, que não haja ponto fixo, que a cadeia de investimento seja incessante, que o valor se propague sem trégua. Em lugar de uma forma "sedutiva", tem-se, então, uma forma produtiva, uma "economia do sexo", um funcionamento maquínico, em que o importante é a realização imediata e imperativa de um desejo, a pulsão.

Na ordem simbólica, é a sedução quem está lá primeiro, o sexo e o gozo ocorrem apenas por ser seu resultado por acréscimo, mas não necessariamente. E nossa "liberação" parece ter invertido os termos. Com o fim sexual aleatório, porém, pode surgir algo além, chamado prazer (ou sedução) ; a lógica pura do desejo, que mais que uma pulsão, é uma paixão. E amar nada tem a ver com pulsão - "amar é um desafio e uma aposta: desafio ao outro de amar de volta - ser seduzido é desafiar o outro a sê-lo. Não há outro limite para esse desafio que não o de ser ainda mais seduzido ou de amar mais do que eu amo senão a morte."

É muito simplista e sexista imaginar a mulher como alienada e depois liberada no seu desejo. A mulher sempre teve sua estratégia, incerta e secreta, cuja expressão maior é a sedução. A dita revolução e conseqüente promoção do feminino como sexo integral, é mais uma das facetas da cultura do tudo falar e tudo gozar. A liberação sexual é isso: a imposição, superexposição e encenação do gozo feminino. O feminino é instituído como sexo e o gozo é a prova multiplicada do sexo. A feminilidade torna-se, então, visível.

Essa exaltação do gozo feminino talvez seja o instrumento perfeito de uma extensão dirigida da razão sexual, pois corta rente todas as racionalizações liberadoras. "Se até aqui nada se ensinara às mulheres para levá-las a nada desejar, não se lhes ensina hoje a tudo exigir para nada desejar?". A passagem do desejo inteiramente para a exigência foi a catástrofe também para a mulher, cuja promoção como sujeito veio acompanhada de um recrudescimenteo de seu estatuto como objeto, ou seja, de uma pornografia generalizada.

A pornografia promove de forma exarcebada o gozo feminino. Seja a mulher sujeito (exige o gozo "pela tomada de consciência da racionalidade de seu próprio desejo") ou objeto (oferece-se ao gozo num estado de prostituição total), por toda a parte se propõe a culminância de sexo, voracidade hiante, devoração. Não é por acaso que todo o pornô gira em torno do sexo feminino. Numa sexualidade intimada a dar suas provas e a se manifestar sem interrupção, a posição marcada masculina é frágil.

Portanto, a assunção do feminino corresponde ao apogeu do gozo e à catástrofe do princípio de realidade do sexo, agora hiper-real. Pois o pornô faz o sexo mais real que o real, o que causa sua ausência de sedução. Faz um acréscimo de realidade ao exagerar o pitoresco dos detalhes anatômicos. Vê-se o que nunca se viu, é o excesso de realidade. Não há espaço para o imaginário nesse espaço de mais-verdade, mais-exatidão. A sedução é perseguida à força da visibilidade. Dão-nos tanto, a cor, o contorno, o sexo em alta fidelidade, que não há mais nada a acrescentar, ou seja, a dar em troca. É a repressão absoluta: dando-nos um pouco demais, cortam-nos tudo.

Tudo o que é oculto e que ainda goza proibição será exumado, entregue à palavra e à evidência. As aparências já não têm segredo. O real aumenta, amplia-se. Almeja-se à alta fidelidade - mas não se sabe nem mesmo a que objeto ela é fiel, pois ninguém sabe onde começa e onde acaba o real.

O problema da infelicidade nunca é o da impotência sexual ou alimentar, com seu cortejo de razões e não-razões psicanalíticas, mas o da impotência quanto à sedução. Desafetos, neuroses, angústia, frustração, tudo o que a psicanálise encontra sem dúvida provém do fato de não se poder amar ou ser amado, de não se poder gozar ou proporcionar gozo, mas o desencantamento radical provém da sedução e de seu fracasso. Só são doentes os que estão profundamente fora da sedução, mesmo que ainda sejam perfeitamente capazes de amar e de gozar. E a psicanálise, que pensa tratar as doenças do desejo e do sexo, na verdade trata as doenças da sedução (as quais ela mesma contribuiu para colocar fora da sedução e encerrar no dilema do sexo). O déficit mais grave sempre fica do lado da atração, e não do gozo; do lado do encantamento, e não da satisfação vital ou sexual. A única castração é a da privação da sedução.

 
O que é sedução?

Poder de atração e de distração, poder de absorção e de fascinação, poder de destruição não só do sexo mas do real em seu conjunto, poder de desafio - nunca uma economia de sexo e de fala, mas um lance de graça e violência, uma paixão instantânea a que o sexo pode chegar, mas que também pode se esgotar em si mesma.

A sedução é aquilo que desloca o sentido do discurso e o desvia de sua verdade. Ser seduzido é ser desviado de sua verdade. Seduzir é desviar os outros de sua verdade. Essa verdade, a partir de então, forma um segredo que lhes escapa.

A sedução tem a força de um enigma a resolver - o outro é um enigma e, para seduzi-lo, é preciso se tornar um outro enigma para ele. Um duelo enigmático, em que a sedução é sua resolução sem que o segredo seja revelado.

O segredo. Qualidade sedutora, iniciática, daquilo que não pode ser dito porque não tem sentido, daquilo que não é dito e que, apesar disso, circula. Assim, eu sei o segredo do outro, mas não digo, e ele sabe que eu sei, mas não levanta o véu. A intensidade entre os dois nada mais é que o segredo do segredo. Essa cumplicidade nada tem que ver com uma informação oculta. Ademais, se os parceiros quisessem revelar o segredo, não poderiam, pois não há nada há dizer.

Não há ativo nem passivo na sedução, não há sujeito ou objeto, nem interior ou exterior; ela atua nas duas vertentes, e ninguém as limita ou separa. Ninguém, se não for seduzido, seduzirá os outros, ser seduzido é a melhor maneira de seduzir

Como a sedução nunca se detém à verdade dos signos mas sim ao engano e ao segredo, inaugura um modo de circulação secreto e ritual, uma espécie de iniciação imediata que só obedece à regra de seu próprio jogo. Para apreender a intensidade da forma ritual, desfazer-se da idéia de que toda a felicidade vem da natureza, de que todo o gozo vem da satisfação de um desejo. O jogo, a esfera do jogo, revela-nos, ao contrário, a paixão pela regra, a vertigem da regra, o poder advindo de um cerimonial e não de um desejo.

Mas seduzir não é a mulher se produzindo como mulher - porque tudo aquilo que se produz, recai no registro do poder masculino. Todo poder masculino é o poder de produzir. A sedução não é o terreno de jogos e astúcias sexuais, mas "uma forma irônica e alternativa, que quebra a referência do sexo, espaço não de desejo, mas de jogo e desafio".

Mas, se tudo é sexualidade e aí se encontra uma espécie de jogo e de aventura, se todos os discursos são como que um comentário eterno de sexo e de desejo, nesse sentido pode-se dizer que todos os discursos tornaram-se discursos de sedução. Mas é uma sedução branda, cujo processo vem a ser sinônimo de tantos outros: manipulação, persuasão, gratificação, ambiente, estratégia do desejo... Uma sedução difusa, sem encanto, sem aposta, esse espectro de sedução que persegue nossos circuitos sem segredos, nossos fantasmas sem afetos, nossas redes sem contato. Não é a sedução-desafio, dual e antagônica, da aposta máxima, mesmo secreta, da sedução mítica, fascínio e sortilégio mortais. Está em toda a parte, mas numa simulação generalizada.

Quanto às redes, nessas predomina a função fática, função de contato, o contato pelo contato, que torna-se uma espécie de auto-sedução vazia da linguagem, quando já não há nada que dizer. Falando-se verifica-se apenas que existe outro na linha, pois, na pura alternância do sinal de reconhecimento, já não há emissor nem receptor. Simplesmente dois terminais, e o sinal de um terminal a outro apenas verifica que "isso" passa, portanto, que não se passa nada.

O grupo conectado ao vídeo é apenas seu próprio terminal. Ele se registra, autoregula-se e se autogere eletronicamente. Autoligação, auto-sedução. O grupo é erotizado pela constatação imediata que recebe de si mesmo. "Ama a teu próximo como a ti mesmo’: esse velho problema do Evangelho está resolvido - próximo sou eu mesmo. O amor é então total. A total auto-sedução