Pierre Lévy, numa perspectiva bastante otimista, especula em
torno da possibilidade da criação, em função das novas tecnologias e, principalmente,
do ciberespaço, de uma nova forma de Espaço Antropológico. Por Espaço antropológico
ele entende um sistema de proximidade (espaço) próprio do mundo humano (antropológico),
e portanto dependente de técnicas de significações, da linguagem, da cultura, das
convenções, das representações e das emoções humanas. Segundo ele, o mundo passou
por três tipos dessas organizações antes: a Terra, os Territórios e o Espaço das
mercadorias.
A Terra foi o primeiro. Repousa sobre as três características
primordiais que nos distinguem: a linguagem, a técnica e as formas complexas de
organização social. A relação com o cosmo constitui seu ponto central, tanto em um
plano que hoje qualificaríamos de imaginário como em uma perspectiva prática, pois o
contato com a natureza é bastante estreito. Os modos de conhecimento são os mitos e os
ritos. Na Terra, a identidade se inscreve ao mesmo tempo no vínculo com o cosmo e na
relação de filiação ou de aliança com outros homens. O primeiro item de nosso
curriculum vitae é, em geral, nosso nome, ou seja, a inscrição numa linhagem.
O Território surge com a agricultura, a cidade, o Estado e a
escrita. Não suprime a Terra, mas recobre-a em parte e tenta domesticá-la. As riquezas
não provêm da colheita e da caça, mas da posse e da exploração dos campos. Os modos
de conhecimento baseiam-se na escrita: começa a história e o desenvolvimento dos saberes
de tipo sistemático e teóricos. O centro da existência não é mais a participação no
cosmo, mas o vínculo com um entidade territorial (propriedade) definida por suas
fronteiras. Ainda hoje possuímos, todos nós, após nosso nome, um endereço, que é na
verdade nossa identidade no Território dos sedentários e dos contribuintes.
O terceiro espaço, o das Mercadorias, surge no século XVI.
Começa a esboçar-se com a inauguração de um mercado mundial conseqüente da conquista
da América pelos europeus. O princípio organizador passa a ser o fluxo: de energias, de
matérias-primas, mercadorias, capitais, mão-de-obra, informações. Esse não suprime os
Espaços anteriores, mas supera-os em velocidade. É o novo motor da evolução. A riqueza
não provém do domínio das fronteiras, mas do controle dos fluxos. Não é bom ser
desempregado no Espaço das Mercadorias, pois a identidade social é nele definida pelo
trabalho. Em nosso curriculum, depois do nome (posição na Terra) e endereço (posição
no território), em geral vem a profissão (posição no Espaço das mercadorias).
Segundo ele, talvez a crise atual dos pontos de referência e dos
modos sociais de identificação indique o surgimento, ainda mal percebido, de um novo
espaço antropológico, o da inteligência e do saber coletivos que comandaria os
anteriores, mas não os faria desaparecer. A novidade, nesse domínio, é tripla: deve-se
à velocidade de evolução dos saberes, à massa de pessoas convocadas a aprender e
produzir novos conhecimentos e ao surgimento de novas ferramentas (as do ciberespaço) que
podem fazer surgir, por trás do nevoeiro informacional, paisagens inéditas e distintas,
identidades singulares, específicas desse espaço, novas figuras sócio-históricas.
Inteligência Coletiva: "É uma inteligência distribuída
por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma
mobilização efetiva das competências". Sua base e objetivo são o reconhecimento e
o enriquecimento mútuos das pessoas, e não o culto de comunidades fetichizadas ou
hipostasiadas.
Em partes:
Uma inteligência distribuída por toda parte: Ninguém
sabe tudo, todos sabem alguma coisa, todo o saber está na humanidade. Não existe nenhum
reservatório de conhecimento transcendente, e o saber não é nada além do que o que as
pessoas sabem. A luz do espírito brilha mesmo onde se tenta fazer crer que não existe
inteligência: "fracasso escolar", "execução simples",
"subdesenvolvimento". O juízo global de ignorância volta-se contra quem o
pronuncia.
Uma inteligência incessantemente valorizada: O fato de a
inteligência estar distribuída por toda parte deve transformar-se em projeto, pois essa
inteligência é tantas vezes desprezada, ignorada, inutilizada e humilhada que, por isso,
não é valorizada. Numa época em que as pessoas se preocupam tanto em evitar o
desperdício econômico ou ecológico, parece que se dissipa alegremente o recurso mais
precioso, a inteligência, recusando-se a levá-la em conta. Assiste-se hoje a uma
verdadeira organização da ignorância sobre a inteligência das pessoas, um terrível
pastiche de experiência, savoir-faire e riqueza humana.
A coordenação das inteligências em tempo real: Os novos
sistemas de comunicação deveriam oferecer aos membros de uma comunidade os meios de
coordenar suas interações no mesmo universo virtual de conhecimentos. O ciberespaço
tornar-se-ia o espaço móvel das interações entre conhecimentos e conhecedores de
coletivos inteligentes desterritorializados.
Atingir uma mobilização efetiva das competências: Para
mobilizar as competências é necessário identificá-las. E para apontá-las é preciso
reconhecê-las em toda a sua diversidade. Os saberes oficialmente válidos só representam
uma ínfima maioria dos que hoje estão ativos. Na era do conhecimento, deixar de
reconhecer o outro em sua inteligência é recusar-lhe sua verdadeira identidade social,
é alimentar seu ressentimento e sua hostilidade, sua humilhação, a frustração de onde
surge a violência.