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Marcuse, Herbert
Eros e Civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud
Resumo baseado em citações do próprio livro
por
Gustavo Cunha


A proposição de Freud, segundo a qual a civilização se baseia na permanente subjugação dos instintos humanos, foi aceita como axiomática. A sua interrogação, sobre se os benefícios da cultura teriam compensado o sofrimento assim inflingido aos indivíduos, não foi levada muito a sério. – ainda menos quando o próprio Freud considerou o processo inevitável e irreversível. A livre gratificação das necessidades instintivas do homem é incompatível com a sociedade civilizada: renúncia e dilação na satisfação constituem pré-requisitos do progresso. Disse Freud: "A felicidade não é um valor cultural". A felicidade deve estar subordinada à disciplina da reprodução monogâmica, ao sistema estabelecido de lei e ordem. O sacrifício metódico da libido, a sua sujeição rigidamente imposta às atividades e expressões socialmente úteis, é cultura.

O sacrifício compensou bastante: nas áreas tecnicamente avançadas da civilização, a conquista da natureza está praticamente concluída, e mais necessidades de um maior número de pessoas são satisfeitas numa escala nunca anteriormente vista. Nem a mecanização e padronização da vida, nem o empobrecimento mental, nem a crescente destrutividade do atual progresso, fornecem bases suficientes para pôr em dúvida o princípio que tem governado o progresso da civilização ocidental. O contínuo incremento da produtividade torna cada vez mais realista, de um modo constante, a promessa de uma vida ainda melhor para todos.

Contudo, o progresso intensificado parece estar vinculado a uma igualmente intensificada ausência de liberdade. Por todo o mundo da civilização industrial, o domínio do homem pelo homem cresce em âmbito e em eficiência. Essa tendência tampouco se apresenta como uma regressão incidental, transitória, na senda do progresso. Os campos de concentração, extermínios em massa, guerras mundiais e bombas atômicas não são "recaídas no barbarismo", mas a implementação irreprimida das conquistas da ciência moderna, da tecnologia e dominação dos nossos tempos. E a mais eficaz subjugação e destruição do homem pelo homem tem lugar no apogeu da civilização, quando as realizações materiais e intelectuais da humanidade parecem permitir a criação de um mundo verdadeiramente livre.

Esses aspectos negativos da cultura hodierna podem muito bem indicar o obsoletismo das instituições estabelecidas e a emergência e novas formas de civilização: a repressão é, talvez, mantida com tanto mais vigor quanto mais desnecessária se torna. Se, com efeito, deve pertencer à essência da civilização como tal, então a interrogação de Freud quanto ao preço da civilização não teria qualquer sentido – pois não haveria alternativa.

Mas a própria teoria de Freud fornece-nos razões para rejeitarmos a sua identificação de civilização com repressão. Com base em suas próprias realizações teóricas, o exame do problema deve ser reaberto. A relação entre liberdade e repressão, produtividade e destruição, dominação e progresso, constituirá realmente o princípio de civilização? Ou essa interrelação resultará unicamente de uma organização histórica específica da existência humana? Em termos freudianos, o conflito entre princípio de prazer e princípio de realidade será irreconciliável num grau tal que necessite a transformação repressiva da estrutura instintiva do homem? Ou permitirá um conceito de civilização não repressiva, baseada numa experiência fundamentalmente diferente entre homem e natureza, e em fundamentalmente diferentes relações existenciais?

A noção de uma civilização não repressiva será examinada, não como uma especulação abstrata e utópica. Acreditamos que o exame está justificado com base em dois dados concretos e realistas: primeiro, a própria concepção teórica de Freud parece refutar a sua firme negação da possibilidade histórica de uma civilização não repressiva; e, segundo, as próprias realizações da civilização repressiva parecem criar as precondições para a gradual abolição da repressão.


Termos utilizados no ensaio:

Civilização - termo permutável com cultura

Repressão e repressivo - utilizados na acepção não técnica da palavra para designar os processos conscientes e inconscientes, externos e internos, de restrição, coerção e supressão.

Instinto - de acordo com a noção freudiana de Trieb, refere-se aos impulsos primários do organismo humano que estão sujeitos a modificação histórica; encontram representação tanto somática como mental.

 

Sob o domínio do princípio de realidade

"O conceito de homem que emerge da teoria freudiana é a mais irrefutável acusação à civilização ocidental – e, ao mesmo tempo, a mais inabalável defesa dessa civilização. Segundo Freud, a história do homem é a história de sua repressão. A cultura coage tanto a sua existência social como a biológica, não só partes do ser humano, mas também sua própria estrutura instintiva. Contudo, essa coação é a própria precondição do progresso. Se tivessem liberdade de perseguir seus objetivos naturais, os instintos básicos do homem seriam incompatíveis com toda a associação e preservação duradoura: destruiriam até aquilo a que se unem ou em que se conjugam. O Eros incontrolado é tão funesto quanto sua réplica fatal, o instinto de morte. Sua força destrutiva deriva do fato deles lutarem por uma gratificação que a cultura não pode consentir: a gratificação como tal e como um fim em si mesma, a qualquer momento. Portanto, os instintos tem de ser desviados de seus objetivos, inibidos em seus anseios. A civilização começa quando o objetivo primário – isto é, a satisfação integral de necessidades – é abandonado.

O homem animal converte-se em ser humano somente através de uma transformação fundamental da sua natureza, afetando não só os anseios instintivos, mas também os valores instintivos – isto é, os princípios que governam a consecução dos anseios. A transformação no sistema dominante pode ser assim definida, de modo probatório:

de para
satisfação imediata satisfação adiada
prazer restrição do prazer
júbilo (atividade lúdica) esforço (trabalho)
receptividade produtividade
ausência de repressão segurança

 

Freud descreveu essa mudança como a transformação do princípio de prazer em princípio de realidade. A interpretação do "aparelho mental" de acordo com esses dois princípios é básica para a teoria de Freud. Corresponde em grande parte à distinção entre os processos inconscientes e conscientes. É como se o indivíduo existisse em duas diferentes dimensões, caracterizadas por diferentes processos e princípios mentais.

Diferenças: o inconsciente, governado pelo princípio de prazer, compreende os mais remotos processos primários, resíduos de uma fase de desenvolvimento em que eles eram a única espécie de processos mentais. Lutavam unicamente por obter prazer; a atividade mental retrai-se, evitando qualquer operação que possa dar origem a sensações de desprazer (dor). Mas o princípio de prazer irrestrito entra em conflito com o meio natural e humano. O indivíduo chega a compreensão traumática de que uma plena e indolor gratificação de suas necessidades é impossível. E, após essa experiência de desapontamento, um novo princípio de funcionamento mental ganha ascendência. O princípio de realidade supera o princípio de prazer: o homem aprende a renunciar ao prazer momentâneo, incerto e destrutivo, substituindo-o pelo prazer adiado, restringido mas garantido. Por causa desse ganho duradouro, através da renúncia e restrição, de acordo com Freud, o princípio de realidade salvaguarda mais do que destrona, e modifica mais do que nega, o princípio de prazer.

Ser humano sob o princípio de prazer: pouco mais do que um feixe de impulsos animais.

Sob o princípio de realidade, o ser humano desenvolve a função da razão: aprende a examinar a realidade, a distinguir entre bom e mau, verdadeiro e falso, útil e prejudicial. O homem adquire as faculdades de atenção, memória e discernimento. Apenas um modo de atividade mental é separado da nova organização do aparelho mental e conserva-se livre do princípio de realidade: é a fantasia, que está protegida das alterações culturais e mantém-se vinculada ao princípio de prazer.

O âmbito dos desejos humanos e a instrumentalidade para sua gratificação foram, assim, incomensuravelmente aumentados, e sua capacidade para alterar a realidade, conscientemente, de acordo com o que é útil, parece prometer uma remoção gradual de barreiras estranhas à sua gratificação. Contudo, tanto os seus desejos como a sua alteração da realidade deixam de pertencer, daí em diante, ao próprio sujeito; passaram a ser organizados pela sua sociedade. E essa organização reprime e transubstancia as suas necessidades instintivas originais. Se a ausência de repressão é o arquétipo da liberdade, então a civilização é a luta contra essa liberdade.

A substituição do princípio de prazer pelo princípio de realidade é o grande acontecimento traumático no desenvolvimento do homem. Segundo Freud, esse evento não foi único, pois repete-se ao longo da história da espécie humana e de cada um dos seus indivíduos. Filogeneticamente (gênero), ocorre primeiro na horda primordial, quando o pai primordial monopoliza o poder e o prazer, e impõe a renúncia por parte dos filhos. Ontogeneticamente (indivíduo), ocorre durante a primeira infância, e a submissão ao princípio de realidade é imposto pelos pais e outros educadores. Mas, tanto no genérico quanto no individual, a submissão é continuamente reproduzida.

O fato do princípio de realidade ter de ser continuamente restabelecido no desenvolvimento do homem indica que o seu triunfo sobre o princípio de prazer jamais é completo e seguro. Na concepção freudiana, a civilização não põe termo, de uma vez por todas, a um estado natural. O que a civilização domina e reprime – a reclamação do princípio de prazer – continua existindo na própria civilização. O inconsciente retém os objetivos do princípio de prazer derrotado.

A repressão é um fenômeno histórico. A subjugação efetiva dos instintos, mediante controles repressivos, não é imposta pela natureza, mas pelo homem. A luta contra a liberdade reproduz-se na psique do homem, como a auto-repressão do indivíduo reprimido, e a sua auto-repressão apóia, por seu turno, os senhores e suas instituições.

O motivo da sociedade, ao impor a modificação decisiva da estrutura instintiva, é, pois, econômico; como não tem meios suficientes para sustentar a vida de seus membros sem trabalho por parte deles, [a sociedade] trata de restringir o número de seus membros e desviar as suas energias das atividades sexuais para o trabalho.

"Na medida em que a plena satisfação de necessidades é felicidade, a liberdade na civilização é essencialmente antagônica da felicidade, pois envolve a modificação repressiva da felicidade". Inversamente, o inconsciente é o impulso para a gratificação integral, que é a ausência de necessidades ou carências vitais e de repressão. Como tal, é a identidade imediata de necessidade e liberdade. De acordo com a concepção de Freud, a equação de liberdade e felicidade, sujeita ao tabu da consciência, é sustentada pelo inconsciente. A sua verdade, embora repelida pela consciência, continua assediando a mente; preserva a memória de estágios passados do desenvolvimento individual nos quais a gratificação imediata era obtida. E o passado continua a reclamar o futuro: gera o desejo de que o paraíso seja recriado na base das realizações da civilização.

Análise de Freud é feita em dois planos:

Ontogenético a evolução do indivíduo reprimido, desde a mais remota infância até a sua existência social consciente.
Filogenético a evolução da civilização repressiva, desde a horda primordial até o estado civilizado plenamente constituído.