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Instrumentos musicais
Música – Nº. 701
Bateria Rolando de Nassáu
(Dedicado ao leitor Helmuth Mohn, de Brasília, DF)
Os favoráveis (principalmente os bateristas) ao uso da bateria nos cultos de nossas igrejas sempre alegam que a Bíblia contém dezenas de passagens onde figuram instrumentos de percussão. Com efeito, no Velho Testamento encontramos 20 passagens a respeito desses instrumentos; vários tipos de tambores: Gênesis 31:27, 1º. Samuel 10:5, 2º. Samuel 6:5, Êxodo 15:20, Jó 21:12 e Isaías 5:12; adufes e pandeiros: 2º. Samuel 6:5; Salmo 68:25, Salmo 81:2 e Salmo 149:3; triângulos: 1º. Samuel 18:6; címbalos (pratos): 2º. Samuel 6:5, 1º. Crônicas 13:8, 1º. Crônicas 25:1, 1º. Crônicas 25:6, 2º. Crônicas 5:12, Esdras 3:10, Neemias 12:27 e Salmo 150:5; castanholas e chocalhos: 2º. Samuel 6:5.
Em contundentes comentários, Paul Mc Common adverte que os instrumentos de percussão eram tocados em ocasiões festivas, porém "nunca em conexão com os cultos realizados no Templo". Paul Mc Common lembra que os hebreus "eram cuidadosos em não incluir certos instrumentos nos cultos divinos realizados no Templo, devido ao fato de não serem apropriados, ou não induzirem à adoração. Usavam somente os instrumentos que podiam contribuir para acrescentar dignidade e beleza aos cultos. Os outros instrumentos (os de percussão) eram reservados para as ocasiões festivas e seculares" (A música na Bíblia. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1963).
Escreveu o baterista Daniel Batera, numa página na Internet, que verificou, em 99% das igrejas por ele visitadas no Brasil, a existência da bateria, independentemente da Denominação, incluindo as igrejas ditas como tradicionais.
Os favoráveis ao uso da bateria às vezes assumem uma posição cautelosa; dizem: "Tocar bateria não é para qualquer um, mas para quem sabe". Com este argumento, abrem-se as portas dos templos e as oportunidades no culto para os bateristas profissionais (Daniel Batera, Julio Figueroa, Rogério Bocatto, etc.), que no exercício da profissão tocam para Madonna, Michael Jackson et caterva.
Outro argumento: o exagero e o profano prejudicam a verdadeira adoração; a questão, para eles, é: quando usar a bateria? de que forma usá-la? A quem compete usá-la? Ora, a grande maioria dos bateristas em nossas igrejas exageram nas batidas, transformando os "shows" (não são cultos) em verdadeiras sessões de tortura auditiva. Os deficientes auditivos têm sido pretextos para a participação do baterista ... Vimos, numa igreja até agora considerada conservadora, uma bateria para marcar os movimentos corporais de um grupo de surdos; para que? Eles não ouvem a música de fundo, mas talvez ouçam o barulho da bateria ...
Há bateristas que só querem bater nos tambores e nos pratos ...
Os instrumentos de percussão, de índole profana, são inadequados ao templo. Quando usar a bateria deveria ser um exercício de bom-senso do baterista e do ministro ou diretor de música. A forma deveria ser a mais discreta possível, isto nas igrejas que admitem a bateria. Há membros de igrejas que acham não poder o "período de louvor" dispensar a bateria. Na pior das hipóteses, alguém técnica e artisticamente capacitado para tocar a bateria deveria escolher a música.
Já ouvimos um argumento capcioso: "muitos rejeitam a bateria, mas aceitam o piano, instrumento também percussivo, que no passado era totalmente proibido nas igrejas". Um piano tocado percussivamente (em geral no prelúdio ou póslúdio) também deve ser motivo de admoestação pelo dirigente da música. Por esse argumento, a igreja deve aceitar os instrumentos de percussão fingindo tratarse de instrumentos adequados ao culto e ao templo.
Outros que advogam o uso da bateria afirmam: "precisamos estudar a bateria, pois estamos em novos dias". Em outras palavras: precisamos nos acomodar à música profana e conformar aos costumes de nossa época.
Alguns crentes acham que o baterista não deve tocar como um passatempo. Se a música profana é, por sua própria natureza, um entretenimento, como o baterista poderá resistir à tentação de divertir-se na execução musical?
Neste periódico denominacional temos lido cartas de leitores que se queixam das batidas fortes, que, em vez de embelezar a música, enfeiam-na. Que dizer da música para vozes solistas, coro e congregação, acompanhada pela bateria? Quase não se ouve, ou não se entende, as palavras do canto.
Pensando bem, até para marcar o ritmo da música, a bateria é dispensável; só não é quando se trata de música visceralmente ligada à tradição militar ou aos rituais tribais; é indispensável na música profana popular.
Em algumas igrejas, já estão sendo usados atabaques (tambores de origem africana), a título de manifestações folclóricas (OJB, 22 set 02, p.4).
Alguns bateristas profissionais têm sido acolhidos em seminários e faculdades teológicas; eles compartilham a idéia de que qualquer tipo de instrumento, qualquer estilo ou ritmo musical, pode ser usado no culto e no templo; é uma idéia que vem contaminando o pensamento da liderança.
Para nós, bateria é instrumento que, mal tocado, mesmo na música profana, só serve para fazer barulho; bem tocado, no culto e no templo, não contribui para a dignidade do culto e não induz à adoração.
Uma igreja que valorize a execução musical em seus cultos certamente abandonará a bateria de triste memória.
(Publicado em "O Jornal Batista", 05 mar 2006, p. 4).
Doc.JB-702
Bateria (2) Rolando de Nassáu
Em 1986, o prezado leitor Élcio Éder Bondarchuk, de Colorado (PR), pediu-nos um artigo "sobre a bateria na música sacra". Atendemos, esclarecendo que a música sacra não usa esse instrumento.
Já notamos que os Hebreus e Israelitas não usavam instrumentos de percussão nos cultos (Paul Mc Common, A música na Bíblia).
Na música erudita, entre os instrumentos de percussão que podem ser "afinados" encontramos os tímpanos (em inglês e em italiano: timpani; em francês: timbales; em alemão: pauken); entre os que não podem ser "afinados", tocam apenas ritmos, o bombo (em inglês: bass drum; em italiano: gran cassa; em francês: grosse caísse; em alemão: grosse trommel). Durante muito tempo, os timpanos foram os únicos instrumentos de percussão admitidos na orquestra. Hector Berlioz, no "Tuba mirum" de seu "Réquiem", prescreveu o uso de 16 tímpanos; em sua "Sinfonia Fantástica", recorreu ao bombo. Na música de concerto esses instrumentos eram usados para fazer barulho ... Recentemente, a Philadelphia Orchestra executou um concerto de Jennifer Higdon; o percussionista Colin Currie, ao tocar a bateria, teve seu momento de Max Roach ...
Na década de 80, começaram a penetrar sutilmente nos templos os instrumentos barulhentos, entre eles a bateria (em inglês: drum set); é o conjunto de vários instrumentos percussivos acoplados adequadamente para serem tocados por um só músico; inclui uma caixa clara, um bumbo (percutido por pedal), um "tom" e um tambor surdo, e cinco tipos de pratos ("hi-hat", "splash", "crash", "ride" e "china").
Em nossos dias, instrumentos fragorosos estão sendo tocados em muitas de nossas igrejas, inclusive nas consideradas tradicionais. Isto é a conseqüência natural da adoção do "rock". Os evangélicos, em geral, protestaram contra a realização dos festivais "Rock in Rio", mas continuam admitindo o "rock" em suas igrejas. Seria farisaísmo proibir a bateria e aceitar o "rock" dentro do templo. O "rock" é ouvido pelos jovens por meio de discos, fitas, rádio, televisão, cinema e Internet, durante uma semana inteira. Será que esse estilo musical pode ser substituído totalmente no domingo? A bateria é indispensável ao "rock", pois a batida forte é que mantém o interesse do ouvinte, por causar-lhe uma reação física. No dizer de Bob Larson, ex-roqueiro que se tornou evangelista (ver: The Day Music Died), a música de "rock", "quando despida do toque repetitivo da bateria, jamais apelará ao ouvinte".
A bateria está entre os intrumentos de percussão indispensáveis a qualquer conjunto de música popular; sem ela, a música não tem sentido, pois o ritmo, o beat, é o elemento coordenador de qualquer estilo instrumental jazzístico (ragtime, swing, bebop, etc.). O baterista é o músico que dá vida ao beat.
No início do jazz (por volta de 1890), não havia solos de bateria; o baterista não tinha mais nada a fazer do que executar regular e passivamente as suas batidas. A partir de 1920, o baterista passou a ter oportunidades de execução virtuosística. Na década de 60, foi "africanizada" a batida (Joachim Ernst Berendt, The Jazz Book).
Outro elemento indispensável ao prestígio da bateria e do conjunto de música popular é a amplificação do volume sonoro no ambiente. A tremenda força do som agride os ouvidos (a reação do jovem é: "eu não estou nem aí" ...) e fragmenta as mentes das pessoas na congregação; por outro lado, eleva o nível-de-ruído no templo, de tal maneira que as palavras cantadas são freqüentemente inaudíveis ou ininteligíveis.
Concluímos que: 1º) a bateria não é instrumento apropriado para a execução de música sacra; 2º) os bateristas e seus advogados têm-se esforçado em traçar um paralelo entre os instrumentos de percussão mencionados na Bíblia e a atual bateria; 3º) a bateria não é instrumento percussivo próprio de uma orquestra para execução de música erudita; 4º) foi sutil, na década de 80, a penetração da bateria em alguns templos evangélicos; atualmente, menos de 25 anos depois de ter penetrado, a bateria parece dominar os templos, que não têm altares, mas palcos; 5º) com a bateria, entrou o "rock"; 6º) jovens evangélicos, por muito ouvir a música de "rock", trouxeram-na para dentro dos templos; 7º) querendo imitar os músicos mundanos, jovens evangélicos promoveram dentro das igrejas e dos seminários o ensino e a prática da música de "rock" usando a bateria; 8º) o estilo, o instrumento e o ritmo musical exigiram a amplificação do volume sonoro dos templos; 9º) para mais rapidamente sensibilizar com simpatia as congregações, os bateristas, os roqueiros e os coreógrafos passaram a usar os deficientes auditivos em apresentações coreografadas, ao som de música popular; 10º) os seminários e as faculdades teológicas, para atender "à demanda do mercado", abriram cursos de "musica cristã contemporânea", que dão oportunidades à coreografia e à bateria durante os cultos dentro dos templos.
Esta é uma triste e constrangedora situação: conviver com música que agita as congregações e fragmenta as mentes das pessoas.
(Publicado em "O Jornal Batista", 02 abr 2006, p. 4).
Música – Nº. 719
Guitarra Rolando de Nassáu
(Dedicado ao leitor Zélio Seraine Teles, de Brasília, DF)
Os instrumentistas de música profana estão conquistando espaço e tempo nos cultos de igrejas batistas. Primeiramente, foi o baterista Daniel Batera (ver: OJB, 05 mar 2006). Agora, o guitarrista Ramon Chrystian (ver: OJB, 15 abr 2007), que, preocupado com os aspectos técnicos do seu instrumento, desconsidera os requisitos estéticos de sua música.
No início do seu artigo para este semanário denominacional, Ramon afirma que a guitarra elétrica tem sido abandonada por equipes de louvor, devido à "falta de conhecimento por parte dos instrumentistas" e ao "preconceito que os líderes (das equipes de louvor) formaram durante anos a respeito deste instrumento". O guitarrista acha necessária uma atuação dos professores e ministros de música, uma conscientização pelos instrumentistas e uma flexibilidade por parte dos pastores.
Para Ramon Chrystian, a guitarra elétrica é "um meio facilitador do culto", que deve juntar-se ao violão (instrumento harmônico, melódico e percussivo), à bateria (instrumento percussivo), ao baixo elétrico e ao piano, em apoio à equipe de louvor. O guitarrista reconhece que o piano é muito completo ("se tocado sozinho, pode dar conta do recado, no sentido de conduzir a música") e que a guitarra elétrica pode agredir a música; por isso, deve ser inserida na equipe de louvor "com muito bom senso" e para "causar emoção nas pessoas".
Observa que é aceitável o uso da "overdrive" ("Vineyard") e da distorção ("Oficina G3"). Conclui que esse tipo de música será uma bênção.
A guitarra elétrica, na atualidade construída para amplificar eletronicamente o som do violão, é usada, desde a década de 30, pelos músicos de "jazz" e de "rock". Charlie Chrystian (será que Ramon adotou esse nome?) foi o primeiro guitarrista da história do "jazz"; ele descobriu uma técnica de toque para a guitarra eletrificada, que passou a ter a agilidade de um instrumento de sopro. Em 1965, Bob Dylan trocou o violão pela guitarra. Jimi Hendrix foi o expoente da guitarra elétrica no "rock"; o instrumento atingiu o maior volume de som. Milhares de jovens elegeram Hendrix como seu ídolo e aderiram à guitarra elétrica para tocar música profana.
Por que os jovens bateristas e guitarristas "adoram" seus instrumentos? Principalmente porque a música por eles produzida é "para os olhos", é "espetáculo", é uma "encenação", e porque os músicos são "as estrelas do show" (ver: Jean-Robert Masson, "Pour une sociologie du jazz – Anatomie du spectacle". Paris: Les Cahiers du Jazz, 1961). Por isso, numa equipe de louvor, não descartam a utilização de alguns recursos cênicos, mesmo durante o culto no templo. Tão importante quanto a execução musical é a "performance" cênica. O interesse é visual, sem preocupação com a transmissão de alguma mensagem. Para o "rock", a imagem é quase tudo (revista ‘VEJA", 16 maio 07, pp. 112-114). Os guitarristas não estão muito preocupados com o texto que o vocalista está cantando.
O abandono da guitarra seria um bom começo para o expurgo da música instrumental em nossas igrejas. Também seria muito bom se os cursos de música (que deixaram de ser dedicados à música sacra) nos seminários e nas faculdades teológicas suprimissem o ensino desse instrumento; que os instrumentistas tivessem consciência do prejuízo que causam à reverência no culto; e que os pastores não fossem flexíveis aos caprichos de bateristas e guitarristas.
Se o piano é um instrumento "muito completo", porque não deixá-lo sozinho no acompanhamento do canto vocal e congregacional? Se a guitarra pode agredir a música do culto, porque não evitá-la?
É aceitável a distorção sonora produzida pela "Oficina G3", o barulho sustentado pela "Gospel Records", gravadora da Igreja "Renascer" (apóstolo Estevam Hernandez)? Teremos oficinas do barulho em nossas igrejas? Ou a "overdrive" da música divulgada pelo Movimento "Vineyard" (John Wimber)?
Talvez Ramon esteja lembrado de "Pirou", que oferece ao guitarrista uma oportunidade de imitar Joe Pass ... Na "G3", o percussionista e o baterista fazem malabarismo rítmico. A capa do CD da "G3" exibe 42 fotografias, mas não reproduz as letras das 14 canções. O visual é mais importante do que a mensagem! (ver: OJB, 02 abr 2001).
Ramon quer com sua guitarra "causar emoção" no culto. Há pessoas que vão ao templo à procura de emoções (ver: Roberto Torres Hollanda. Culto – Celebração e Devoção. Rio de Janeiro: JUERP, 2006, pp. 39-40, 118-120); querem oportunidades de diversão, durante a mensagem pastoral e as outras partes do culto; querem tornar-se diferentes, para afastar-se da realidade; querem ficar alegres, para sentir-se satisfeitos ao final do culto. A guitarra, instrumento apropriado à música de entretenimento, pode inclusive provocar nos assistentes uma expressão corporal ofensiva à dignidade do culto.
Temos sérias dúvidas se a guitarra é uma bênção. Ramon Chrystian pode ter preparo técnico, mas seu talento foi mal orientado. Quem pagará o tributo? A música de culto. A falta de sensibilidade é sempre danosa.
Em 2001 já escrevíamos que, o que os guitarristas tocam e o que o "público" ouve, é mero entretenimento.
(Publicado em "O Jornal Batista", 05 ago 2007, p. 4).
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